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Editorial

A igreja no Brasil está de luto

   Saudade e tristeza! Essas são as melhores expressões para tentar definir o sentimento que tenho tido com respeito à igreja atual no Brasil. Saudade não apenas de alguns anos atrás. É um sentimento estranho porque tenho sentido saudades de uma época, ou várias épocas, em que eu não presenciei, até porque, eu ainda não havia nascido. 

 Saudade de uma época entre 1915 e 1963 em que a igreja teve a oportunidade de conhecer um homem como A.W.Tozer. Saudade de uma época anterior a fevereiro de 1691 em que viveu o irmão Lawrence, ou anterior a Julho de 1970 em que a igreja teve a alegria de conviver com Frank Laubach. E o que dizer de épocas que foram transformadas pelas vidas de Joseph Alleine, Spurgeon, Watchman Nee e muitos outros? (Isso sem falar de épocas recentes de homens como Ivan Baker ) 

Bons tempos aqueles! 

Esse tipo de sentimento (a saudade) seria bom se fosse apenas saudades pela vida deles e pela companhia deles, mas se torna um sentimento ruim pelo simples fato de que, essa saudade se dá pela época em que vivemos. Daí nasce a tristeza. Tenho sentido tristeza pela igreja hoje no Brasil. Tristeza pelo tipo de homens e mulheres que o meio “evangélico” tem produzido. Tristeza pela qualidade dos líderes espirituais. Já não se faz mais líderes como antigamente e o tipo de ovelhas, líderes, pastores, diáconos, “bispos”, apóstolos, ou seja lá que título tenham, não chegam nem aos pés dos homens e mulheres que a igreja conheceu no passado. 

Em nossa época atual, temos conhecido um tipo de liderança espiritual tão parecida com o mundo que se o profeta Jeremias estivesse ainda vivo, nós o mataríamos de ataque cardíaco fulminante (Jr 4:19) pela decepção e tristeza de conviver com líderes religiosos do calibre dos que estão aparecendo por aí. 

Vivemos numa época diferente. O discurso do reino de Deus imprimido no mundo inteiro pela vida e pelo testemunho desses homens e mulheres do passado, já não encontra mais espaço no mundo em que vivemos hoje. 

O discurso de Frank Laubach e do irmão Lawrence, que anelavam por conhecerem e desfrutarem de uma presença constante de Deus em suas vidas já não é mais ecoado em nossa cultura. O discurso de Joseph Alleine que definia exatamente o que era um novo convertido e um homem mundano, hoje seria objeto de um linchamento popular pela mídia e pelos ditos “evangélicos”, por considerarem seu discurso um tanto quanto “exagerado”. 

Não vemos mais esse tipo de discurso, e é cada vez mais escasso homens e mulheres que sonham, anelam, pela presença de Deus com o mesmo ardor. Homens e mulheres que são conhecedores de sua situação perante Deus e que travam uma luta ferrenha contra o brilho do mundo, contra os principados, contra o pecado e contra a sí mesmo, para imprimirem em suas vidas a semelhança com a vida de Cristo ( Rm 8:28-29) e para alcançarem o prêmio da soberana vocação (Fp 3:14). 

O que a igreja creu e viveu durante muitos séculos e que foi exposto, defendido e vivido por esses irmãos, foi substituído por outro evangelho. 

"Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho, o qual não é outro, senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo.Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema." Gálatas 1:6-10 

Esse “outro evangelho”, pregado com total liberdade nas emissoras de rádio e de televisão e transmitido de púlpito, sem o menor pudor, nem temor do Santo de Israel, tem confundido milhares de pessoas em todo o mundo e tem impedido que pessoas sérias e sedentas de Deus possam conhecer e experimentar do Senhor, de uma forma intensa. 

São evangelhos que pregam a felicidade do homem como um objetivo a ser alcançado, contrariando todos os ensinamentos de Jesus de que no mundo teríamos aflições (Jo 16:33), de que seríamos perseguidos (Mt 5:10), de que o nosso tesouro é em Cristo (Mt 19:21) e que seríamos consolados pelo Senhor porque iríamos prantear (Mt 5:11). 

São evangelhos que deturpam a palavra de Deus sem o menor escrúpulo, para desfazerem casamentos, re-casar divorciados, permitir a lascívia e a promiscuidade nos relacionamentos de namoro e abençoar aquilo que o Senhor tem amaldiçoado. 

São evangelhos diabólicos que pregam o sucesso financeiro a qualquer custo e que ensinam às pessoas que Deus tem a obrigação de abençoá-las financeiramente e de torná-las ricas, pondo o Santo de Israel na condição de escravo à serviço do homem e tornando Deus devedor do homem. É o criador devedor da criatura. É o evangelho que prega a felicidade do homem a qualquer preço, mesmo que para isso seja necessário mudar a interpretação dos textos bíblicos, contrariando todo e qualquer mandamento claro do senhor. São evangelhos fracos, sem nenhum preço, sem nenhuma demanda. É o anúncio das promessas sem os mandamentos. São os benefícios sem as exigências naturais do reino. 

E o único preço que se paga por esse evangelho aguado, mesclado, é a fidelidade aos encontros, aos dízimos e às ofertas. São lobos vorazes que estão conduzindo milhares ao inferno junto com eles e pelas suas práticas já estão sendo aguardados para serem julgados pelo Senhor. 

O que dirão quando se encontrarem com o Santo de Israel? O que dirão quando exibirem suas mãos manchadas pela vida do povo por terem mercadejado a palavra do Senhor como fruta em promoção de feira? 

Creio na unidade e tenho trabalhado por esta causa, mas não posso negociar o senhorio de Jesus e o seu reino. Na oração de Jesus, no evangelho de João (17:17), Jesus ora para que os discípulos sejam santificados na verdade. Não haverá unidade sem santificação, porque a igreja deve ser uma na semelhança de Cristo. 

Diante de todo o exposto, concluo esse pensamento expressando dois sentimentos: tristeza e alegria. A tristeza é pelo povo. Naquele dia, a maior multidão não será nem dos da direita, nem dos da esquerda. Será a multidão dos perplexos, que ficarão boquiabertos ao saberem o que Deus pensa deles (Mateus 7:13-23). 

A alegria é pelo fato de saber que eu não estou só. Há, muitos, que, assim como eu, não darão sossego às suas almas enquanto não completarem a sua carreira e agradarem ao Santo de Israel. Mesmo que para isso tenhamos que ser tachados de radicais. 

A alegria é por saber que o caminho de Deus além de perfeito (Sl 18:30) é apertado (Mt 7:13), e poucos entrarão por ele. Não me assusta ver o caminho espaçoso cheio das multidões. Não me assusta, mas me entristece. 

"Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este sentimento; e, se, porventura, pensais doutro modo, também isto Deus vos esclarecerá.Todavia, andemos de acordo com o que já alcançamos. Irmãos, sede imitadores meus e observai os que andam segundo o modelo que tendes em nós. Pois muitos andam entre nós, dos quais, repetidas vezes, eu vos dizia e, agora, vos digo, até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo. O destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre, e a glória deles está na sua infâmia, visto que só se preocupam com as coisas terrenas. Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele tem de até subordinar a si todas as coisas. Portanto, meus irmãos, amados e mui saudosos, minha alegria e coroa, sim, amados, permanecei, deste modo, firmes no Senhor." Filipenses 3:15 a 4:1