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Editorial

“Eu quero ser um adorador”

Impressionante como nos últimos tempos temos ouvido essa frase com muito mais freqüência e ênfase do que há alguns anos atrás. Quando eu ouvi essa frase pela primeira vez me senti chamado por Deus para ser um verdadeiro adorador, como descrito no evangelho de João. Mas, com o passar dos anos, parece que, eu e essa frase, tomamos caminhos diferentes.

Descobri que essa afirmação tornou-se uma doutrina muito perigosa, apesar de Ter nascido de uma verdade fantástica, mas, parece que aos poucos tomou vida própria e se desviou.

Descobri que no meio do povo de Deus nasceu uma nova doutrina: “a doutrina do que é ser um adorador”. Os cultos passaram a ser medidos pelos grupos de louvor. Se as pessoas “entram no clima” e cantam alto, choram, profetizam, e expressam por Jesus um amor romântico, então podem ser chamados de “verdadeiros adoradores”. Os demais, que não conseguem expressar “seus sentimentos” por Jesus, “ficam à ver navios” e são sempre “extimulados” a serem “adoradores”. Eu, pessoalmente, costumo sair desse tipo de encontro com uma sensação de que ainda não sou um “verdadeiro adorador”.

Eu vim de um passado muito negro, que ás vezes eu nem gosto de lembrar; na verdade me lembro somente para trazer à memória de onde fui resgatado pelo Senhor e Ter um coração de completa gratidão. Mas, fui, durante anos, praticante do candomblé e logo depois do espiritismo, antes de conhecer ao senhor. Na verdade, eu sempre participei desses lugares porque buscava algo diferente para a minha vida. É como se eu estivesse procurando algo que nem eu mesmo sabia o que era. Eu não abandonei o candomblé e o espiritismo porque encontrei Jesus. Eu abandonei porque não encontrei o que eu estava procurando! (na verdade, eu nem mesmo sabia o que estava procurando). Depois de alguns anos longe dessas “seitas” eu encontrei a Jesus e descobri que era exatamente Ele que eu o procurava – sem saber.
Essa caminhada já dura quase vinte anos! Encontrei a pérola mais preciosa que um homem poderia sonhar.

O que mais me angustia é saber que após toda essa caminhada com o Senhor parece que estou longe de me encaixar no perfil de um “adorador” nos moldes atuais. As pessoas parecem me exigir choro constante durante os louvores, gritarias, agitação... enquanto eu tenho buscado um louvor racional nos moldes da exortação de Paulo aos Romanos.
Por falar nisso, a palavra que foi traduzido como “racional” nesse texto, tem, no original, uma conotação de “verdadeiro”. Qual é o culto verdadeiro? Apresentar os nossos corpos como sacrifício agradável a Deus!

Essa “doutrina da adoração” que tem sido difundida nesses dias tem uma história “espirita”. Ora, as pessoas dizem que a teoria espirita é a salvação pelas obras. Não é bem assim. Até porque todos seremos julgados pelas obras – no nosso caso, pela obra vicária de Cristo. E como cristãos somos exortados a praticarmos boas obras. A questão espirita não é a obra, é a independência - como de todos. A grande mentira espirita é considerar que Deus “esquecerá” da vida miserável e independente que você leva somente porque você praticou boas obras. É considerar que as boas obras anula o caminho sem piedade e sem santidade. Resumindo: as boas obras engana Deus e faz a gente parecer bonzinhos diante dele. Esse é o erro espírita.

E essa doutrina de adoração segue um caminho muito parecido. As pessoas consideram que Deus leva em conta um momento repentino de choro, gritaria e “expressão de adoração”, sem levar em conta a semana deplorável e sem nenhuma expressão de santidade que aconteceu antes desse tempo de “quebrantamento”. Essa é uma doutrina muito perigosa.

Como disse Tozer, nas nossas adorações as pessoas mais parecem estarem se declarando a um amante carnal do que a um Senhor! Os nossos cultos se tornaram “sensuais” e românticos.

Desde quando me converti, fui ensinado a adorar a Deus durante a minha semana. E aprendi que o “culto” no final da semana é apenas um resultado de vários “cultos” que eu venho prestando ao Senhor durante os dias que antecedem o Domingo. Quando estou no meio de situações em que eu tenho que escolher entre fazer o que quero e obedecer ao Senhor aí é que começa o “culto racional”. E cada decisão de agradar ao Senhor é como um “sacrifício agradável” – conforme descrito por Paulo. Esse sim é o verdadeiro louvor, é a verdadeira adoração. A adoração onde dizemos ao Senhor, na prática: - TE AMAMOS! VENHA TEU REINO SOBRE NÓS! REINA SOBRE MINHA VONTADE!

Deus quer adoradores nas empresas onde têm chefes implicantes. Deus quer adoradores no seio de famílias onde têm homens omissos e mulheres tagarelas. Deus quer adoradores nas ruas onde passam mulheres bonitas e sensuais. Deus quer adoradores no meio de pessoas que não têm maturidade para cuidar de dinheiro.

Não adianta choros e gritarias no Domingo se não houver verdadeira adoração e sacrifício vivo durante a semana.

Aí quando chega o Domingo e eu percebo que não “entro no clima” do choro e das gritarias, fico feliz! Feliz por saber que já chorei durante a semana o que eu tinha que chorar. E já gritei de dor o que eu tinha que gritar. Agora é tempo de alegria! Tempo de renovar as forças e de pedir graça de Deus para enfrentar novos choros e novas gritarias na semana que está entrando.

Eu quero ser um adorador!

Paulo Ricardo