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Editorial

As dores da obra

Nesses dias tenho pensado em algo: Quão ingrato é o trabalho de pastorear ovelhas. Se tudo vai bem, é porque as ovelhas estão bem. Se algo vai mal, é porque quem pastoreia não está fazendo algo direito. O mérito nunca é nosso, a culpa, sempre é.

A obra de Deus nos causa dor.

Essa afirmação pode não soar muito bem no coração de alguns, mas, quem está envolvido na obra e tem participação ativa no propósito eterno de Deus, sabe do que eu estou falando. Envolver-se com a obra não é algo fácil. Para alguns, estar envolvido com a obra é bom porque dá status. Esses são lobos vorazes, fazem porque isso lhe agrada e se comportam como o fariseu descrito em Lucas 18:10-13 que orava de si para si mesmo. Muitos se envolvem com a obra porque traz satisfação pessoal. O prazer desses é de si para si mesmo. Não têm compromisso com a obra, nem com as pessoas, mas com o status que a obra dá.

Para outros, não. Esses são mais sinceros. Fazem pelo Senhor. Se gastam, se envolvem, investem em vidas, dão seu tempo, abrem suas casas, expõem suas famílias, derramam suas vidas... Esses sabem que seu trabalho, em Deus, não é vão. Paulo disse aos Gálatas (Gl 4:19) que sentia dores de parto por eles até que Cristo fosse formado naquela igreja. Ora, a mulher sabe que suas dores de parto tem tempos contados. Em João 16:21 a palavra diz que a mulher, quando está para dar à luz, sente tristeza porque é chegada a sua hora; mas, depois de ter dado à luz a criança, já não se lembra da aflição, pelo gozo de haver um homem nascido ao mundo. Quando Paulo afirmou aos Gálatas que sentia dores de parto por eles, o tempo final dessas dores seria o dia em que Cristo fosse aperfeiçoado neles.

Ou seja, Paulo não vislumbrava um tempo muito próximo em que essa dor fosse ter fim. Ele se envolveu com aquela gente sabendo que seu sofrimento no cuidado da vida deles não tinha um tempo determinado para cessar.E isso não foi um privilégio apenas dos Gálatas. Na carta aos Colossenses (Cl 1:24) Paulo diz: “Agora me regozijo no meio dos meus sofrimentos por vós, e cumpro na minha carne o que resta das aflições de Cristo, por amor do seu corpo, que é a igreja;”. Paulo estava consciente de que ele estava cumprindo o que restou das aflições de Cristo por amor a igreja. Que revelação !!! A obra não era algo fácil. Ele não podia tratar a obra levianamente. Ele não podia “empurrar com a barriga”. Ele sabia que havia sido chamado para sofrer e que estava trilhando um caminho de dores que havia sido trilhado primeiramente por Jesus.Para alguns essa revelação pode significar o início de tempos de choro, mas não deve ser assim. Apesar de saber que ele havia sido chamado para sofrer e para sentir dores, Paulo também sabia que esse chamado era motivo de alegria. Aos Filipenses, Paulo diz que suplicava por eles com alegria no coração (Fp 1:4). Aos corintios, Paulo diz que mesmo entristecido, ele se alegrava no Senhor (II Co 6:10).

Mas de onde poderá vir essa alegria? Como poderemos nos alegrar num serviço tão doloroso, com tanto sofrimento? Pedro teve uma revelação profunda desse sofrimento. Na primeira carta de Pedro (I Pe 4:13), ele diz: “mas regozijai-vos por serdes participantes das aflições de Cristo; para que também na revelação da sua glória vos regozijeis e exulteis.” E (I Pe 4:19) “Portanto os que sofrem segundo a vontade de Deus confiem as suas almas ao fiel Criador”.

A alegria de Pedro era saber que quando Cristo se revelasse na sua glória, eles seriam recompensados pela obediência e seriam participantes da alegria do Senhor, assim como participaram de seus sofrimentos.Mas de onde Pedro tirou essa revelação? Num certo momento, Pedro teve um encontro com Jesus após a ressurreição de Cristo, onde Cristo apareceu no mar de Tiberíades. Pedro chegou na praia e encontrou Jesus diante de uma fogueira e comeram juntos. E depois de terem comido iniciaram um diálogo muito conhecido:

João 21:15-17 Depois de terem comido, perguntou Jesus a Simão Pedro: Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes? Respondeu-lhe: Sim, Senhor; tu sabes que te amo. Disse-lhe: Apascenta os meus cordeirinhos. Tornou a perguntar-lhe: Simão, filho de João, amas-me? Respondeu-lhe: Sim, Senhor; tu sabes que te amo. Disse-lhe: Pastoreia as minhas ovelhas. Perguntou-lhe terceira vez: Simão, filho de João, amas-me? Entristeceu-se Pedro por lhe ter perguntado pela terceira vez: Amas-me? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas; tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta as minhas ovelhas.

A revelação de Pedro estava aí. Pedro, assim como Paulo, sabia que o ministério dele era sofrer e sentir dores no cuidado da igreja, mas onde estava o motivo de alegria? A alegria estava no chamado. Pedro sabia que ele havia sido chamado pelo Senhor. Não era qualquer um que o havia chamado. Não foi uma assembléia que o escolheu. Não foi um desejo pessoal de se projetar, de se autopromover. Não havia desejo de status, nem de ostentar uma posição de destaque. Havia um chamado do próprio Jesus. Pedro havia sido, pessoalmente, incumbido pelo Senhor. Havia um chamado celestial. Essa revelação também Paulo tinha, quando afirmou nas cartas a Timóteo que ele era apóstolo por ordem (I Tm 1:1) e pela vontade de Deus (II Tm 1:1).

Paulo afirma na 1ª carta a Timóteo (I Tm 3:1) que aquele que aspira o episcopado, excelente obra almeja. Ora, os que estão desempenhando o episcopado, sabem o quão doloroso é esse serviço. Onde está pois a excelência? A excelência está na obediência ao chamado de Cristo. A excelência está em atender ao chamado de Cristo.Sempre que sentirmos dores ou sofrermos no cuidado de vidas, no cuidado de pessoas, da igreja, sempre nos perguntarmos por que estamos envolvidos nisso, sempre que sentirmos a carne reclamar por direitos e por recompensas por esse trabalho muitas vezes com dores e sofrimento, precisamos, nesse momento, ouvirmos o chamado do Senhor: TÚ ME AMAS? ENTÃO, APASCENTA AS MINHAS OVELHAS.

Tenho me alegrado nesse serviço, não porque ele tenha recompensas, mas porque eu amo o Senhor. E apascentar as suas ovelhas é fruto do amor a Ele. Sofro, por amor a Ele. Sinto dores, por amor a Ele. Sirvo, porque fui chamado por Ele. Essa deve ser a nossa alegria. E se você está envolvido na obra, lembre-se: FAÇA POR AMOR AO SENHOR.I Corintios 13:4-8a O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não se ensoberbece, não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal; não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba. 

Paulo Ricardo